Livro, um negócio em transformação

por Paulo Verano

Pode-se supor que o e-book venha enfim se tornar um suporte de grande relevo. Some-se a cultura do grátis presente na internet a uma fortalecida cultura da pirataria e à ampla concorrência online e offline e temos ingredientes que nos sugerem que o assunto merecerá importante acompanhamento. A história do livro está longe de seu fim.

É sentido por todos nós, nas mínimas atividades do dia a dia, o quanto o mundo vem mudando em ritmo acelerado, alterado que foi, e vem sendo, por uma série de eventos que se combinam, se contrapõem, interagem e operam essas modificações. Olhar para o livro nos serve de metáfora, mas também tem alcance concreto. O livro é, desde tempos imemoriais, um invento extraordinário que nos serve para entender o mundo. Isso vale para os papiros egípcios, para os livros indianos esculpidos em folhas de palmeiras, para as primeiras experiências romanas de livros costurados e vale, é claro, para o livro pós-Gutenberg, do século XV para cá, que tem a cara com que o conhecemos, e que antecede os caminhos digitais que o século XXI vem acelerando.

O LIVRO COMO ESPELHO DE MUDANÇAS VELOZES

Até fins do século XX, não é exagero dizer que o livro e o mercado editorial avançaram dentro de um tempo que combina com a leitura dedicada: analógico, linear, submetido aos limites e possibilidades de sua produção, comercialização e circulação. E com cadeia clara: escritor, editor, gráfico, distribuidor, livreiro, leitor.

Dos anos 1990 para cá, vimos assistindo a uma série de modificações nesse roteiro. Aparentemente aos poucos, mas em perspectiva histórica de modo sempre veloz, o mercado editorial foi se complexificando em nível global. As pequenas editoras familiares foram sendo compradas por grandes conglomerados. Os livreiros especializados foram vendo suas pequenas livrarias de rua serem substituídas por grandes lojas de shopping.

Um novo salto no tempo nos levará ao início da segunda década do século XXI: o livro digital, anunciado como grande modificador da realidade leitora na virada para os anos 2000, não só não substituiu o livro, como acompanha a sua nova guinada. A tecnologia gráfica vai-se tornando cada vez mais barata e, com ela, associada à nova dinâmica contemporânea proporcionada pela internet, ao surgimento de uma nova cena editorial que precisa ser vista, necessariamente, em duas perspectivas: cada vez mais organizada em grandes conglomerados, mas também cada vez mais diluída em inúmeras iniciativas editoriais que modificam a cadeia editorial por completo.

“PROFISSIONALIZAÇÃO” DO MERCADO

A profissionalização do mercado editorial, a partir dos anos 1990, veio acompanhada de alguns efeitos colaterais: (a) a lucratividade acima de tudo, com os negócios indo de familiares a corporativos, às vezes pondo de lado a qualidade editorial pelo financismo e pela dependência governamental ao invés da formação de um mercado leitor; (b) o malfadado modelo das livrarias de shopping substituindo as de rua, levando a impactos na bibliodiversidade, na urbanidade, na irreal dependência de best-sellers; (c) a massificação do modelo de consignações e suas consequências ao mercado editorial.

Na atualidade, em contrapartida, há um estilhaço benéfico ao mercado editorial, embora explicite sua crise. Continuam as corporações e certa redução do fazer editorial em prol do lucro, mas proliferam novos negócios editoriais. São tanto novas livrarias de rua que recuperam a figura do livreiro curador, quanto editoras independentes que põem o fazer editorial e o livro como bem cultural no cerne de seu negócio, numa concertação entre ambos: essas editoras comercializam seus livros nessas livrarias e se descolam das grandes redes. E também comercializam seus livros diretamente, por meio de e-commerce, feiras de publicações e outras iniciativas.

Isso nos põe em contato com uma criatividade pujante pelas brechas, como faziam determinados editores independentes que operaram a contracultura dos anos 1980. Mas com uma diferença importante.

A Pólen Livros, da editora Lizandra Magon de Almeida, também surgiu no início da segunda década do século XXI. Absolutamente sintonizada com este, vê a cada dia seus autores galgarem mais espaço em locais que antes não seria possível que alcançassem. A socióloga Djamila Ribeiro, no topo de todos os rankings com um título publicado pela Companhia das Letras (Pequeno Manual Antirracista), é também autora da Pólen Livros, com Lugar de Fala. O filósofo e jurista Silvio Almeida, que em junho alcançou audiência inédita no relevante programa Roda Viva, da TV Cultura, é outro autor da Pólen Livros, e seu livro Racismo Estrutural também frequenta as listas dos livros mais vendidos.

Diversas outras editoras poderiam nos servir aqui de exemplo para esse novo momento editorial brasileiro, e isso nos serve para detectar o óbvio: os editores hoje têm a possibilidade, graças a um conjunto de fatores, de fazerem o que sabem fazer, com a priorização da qualidade e do debate e beneficiando-se da possibilidade de grande capilaridade.

O “NOVO” INDEPENDENTE

Diferentemente da cena independente dos anos 1980, há hoje, por conta dos avanços tecnológicos, uma maior possibilidade de realização e de publicização do que é realizado. Hoje é possível editar de modo independente, para pequenos nichos, mas, ao mesmo tempo, chegar a soluções híbridas, que permitem que os livros cheguem à grande imprensa e ao seu público — seja ele de nicho ou massivo.

Surgem novos independentes editoriais. Tomemos a editora Lote 42, criada em 2012 e hoje com grande representatividade, com seus editores Cecilia Arbolave e João Varella sendo exemplares da mudança ao terem conseguido criar um mercado: suas feiras independentes movimentam milhares de pessoas. Seus autores são provenientes de espaços de relevo, seus livros aparecem nos jornais, nas tevês e, principalmente, na internet, onde as redes sociais os conectam com seu público.

PARA ENCERRAR

Em situações como a atual — de forte pandemia global que atinge ao Brasil em cheio —, com impactos notórios na saúde e na economia, as consequências também chegam ao livro. Pode-se supor que o e-book venha enfim se tornar um suporte de grande relevo. Some-se a cultura do grátis presente na internet a uma fortalecida cultura da pirataria e à ampla concorrência online e offline e temos ingredientes que nos sugerem que o assunto merecerá importante acompanhamento. A história do livro está longe de seu fim.

     Paulo Verano é doutor em Ciência da Informação pela ECA-USP, onde leciona no curso de graduação em Editoração. É diretor acadêmico dos cursos de Publishing da Casa Educação e, após passagens como diretor editorial no Grupo Planeta e como gerente editorial de Literatura e Paradidáticos das editoras Ática-Scipione (Somos Educação), criou em 2016 sua própria editora independente, a Edições Barbatana, em parceria com a designer Angela Mendes.

Fonte: Revista Ensino Superior

https://revistaensinosuperior.com.br/

Impactos da covid na escola e nos materiais didáticos é tema de curso

     Impactos da Covid-19 na Educação e na Produção de Materiais Didáticos é tema de um curso online de 14 horas organizado pela Casa Educação que começa nesta segunda, 28, e vai até 21 de outubro, sempre às segundas e quartas, das 19h às 21h15. Além dos participantes passarem a compreenderem como a pandemia vem impactando o dia a dia escolar, o curso também objetiva mostrar o quanto o atual cenário exige novas metodologias tanto para o ensino remoto quanto para o híbrido e mais: visa identificar como estão desenhados hoje os principais materiais didáticos e o quanto a covid-19 exige a produção de novas materiais.

     Elaborado e ministrado por Milena Steger, que tem cerca de 10 anos de experiência com educação a distância, a especialista destaca que em relação aos Estados Unidos e Europa, o Brasil, até a pandemia, não possuía um grande movimento de modelo EAD e híbrido na educação básica.

Milena é cofundadora da Merit Consultoria, designer instrucional, pedagoga pós-graduada em gestão escolar e gestão de projetos, além de gestora pedagógica do infantil e fundamental 1 de um colégio na capital paulista.

     Novo normal

“Como gestora no colégio, vejo muitos pais falando: quando tiver a vacina vai acabar o online. Acho que nós, como gestores e educadores, temos que trabalhar com as famílias a comunicação é mostrarmos que o ensino híbrido não vai acabar, fará parte do novo normal”, defende.

Em relação ao início da pandemia, a maioria das escolas foram pegas no susto e tiveram que fazer a transição do presencial para o online de forma rápida e sem planejamento. Com o colégio que Milena atua não foi diferente. “Quando procuramos como implantar um modelo educacional para a pandemia, descobrimos que os demais colégios – pelo menos a maioria – estavam na mesma. Não havia um modelo, um consenso de como seria feito. Achei muito material de fora. Acredito que em países com a modalidade híbrida mais consolidada não foi uma mudança tão drástica”, conta.

O curso Impactos da Covid-19 na Educação e na Produção de Materiais Didáticos custa R$ 280,00 + R$ 28,00 de taxa e pode ser parcelado em até 12x. Para mais informações, acesse: https://www.sympla.com.br/impactos-da-covid-19-na-educacao-e-na-producao-de-materiais-didaticos–ead__935635 .

Fonte: Revista Educação https://revistaeducacao.com.br/2020/09/25/covid-escola-curso/

DEFENDA O LIVRO: Diga Não à Tributação de Livros

O ministro Paulo Guedes enviou uma proposta de reforma tributária que impôs uma taxação de 12% em cima dos livros. Atualmente, os livros não possuem essa taxa, pois o objetivo disso (quando proposto por Jorge Amado) era tornar o acesso à cultura mais fácil. Infelizmente, sabemos que esse acesso já não é tão fácil assim.

Se aprovado o Projeto de Lei 3887/2020, os livros irão se tornar mais caros e inacessíveis do que já são para grande parte da população. Afetando, assim, não somente os que têm apreço à leitura, mas também editoras menores sustentadas por famílias que já LUTAM por sua sobrevivência e, consequentemente, autores de livros – em especial os nacionais não famosos.

O consumo de livros já é completamente elitizado, imagine se a proposta for aprovada e os livros ficarem mais caros do que já são? A média de leitura do brasileiro é de APENAS dois livros por ano e, mesmo assim, a reforma foi encaminhada. Qual o real intuito de aumentar um imposto de um mercado já defasado? Seria o intuito “acabar com privilégios” ou perpetuar um sistema que os permite existir?

Ao ser questionado sobre isso, o ministro Paulo Guedes AFIRMOU que iriam doar livros para os “pobres e frágeis”, mas os ricos deveriam pagar impostos sobre os livros. Mas eu te pergunto: com o histórico que o governo apresenta em ajudar os “pobres e frágeis” você acha mesmo que isso vai acontecer? Quais livros eles estão falando que vão doar? Por que ele disse isso e ao mesmo tempo nenhuma proposta do tipo foi encaminhada ao congresso? Mal se tem livros nas escolas públicas para todos os alunos!

Ao invés de estar correndo atrás de políticas para que os livros possam ser acessados pela maior parte, ou até por toda a população, o governo está fazendo exatamente o contrário.

“Um autor recebe, em média, 10% do preço de capa do livro por direitos autorais. Caso a reforma seja aprovada, o governo passará a receber 12%. Ou seja, mais que o autor do livro.”

DIGA NÃO À REFORMA TRIBUTÁRIA! PRECISAMOS DE MEIOS PARA FACILITAR O ACESSO À CULTURA E NÃO O CONTRÁRIO!

#DEFENDAOLIVRO

Link para a assinatura da petição de já engajou mais de um milhão de pessoas: http://chng.it/4zHspGs5rJ

Entenda as 10 competências gerais da BNCC

As aprendizagens essenciais definidas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) devem concorrer para assegurar aos estudantes o desenvolvimento de dez competências gerais no decorrer da educação básica que, diz o documento, “consubstanciam, no âmbito pedagógico, os direitos de aprendizagem e desenvolvimento”. Competência é definida na BNCC como a “mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemo­cionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”. No texto, os educadores destacam a necessidade das competências “inter-relacionarem-se e desdobrarem-se no tratamento didático proposto para as três etapas”, o infantil, o fundamental e o médio.

A seguir, Educação lista as dez competências gerais definidas no texto da BNCC com comentários críticos de Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare e integrante do Movimento Pela Base. E enumera os Eixos Estruturantes do Ensino Infantil, dos quais derivam seis Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento e cinco Campos de Experiência para a primeira das três etapas da educação básica. Confira:

Os dois Eixos Estruturantes do Ensino Infantil são: Interações e Brincadeiras.

Baseado neles deve-se assegurar seis Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento. São eles: Conviver, Brincar, Participar, Explorar, Expressar e Conhecer-se.

Considerando os seis direitos, a BNCC define cinco campos de experiência para aprendizado e desenvolvimento: Eu, o Outro e o Nós; Corpo, Gestos e Movimentos; Traços, Sons, Cores e Formas; Escuta, Fala Pensamento e Imaginação; e Espaços, Tempos, Quantidades, Relações e Transformações

1.Conhecimento — Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
Objetivo: Entender e explicar a realidade, colaborar com a sociedade e continuar a aprender.

2.Pensamento Científico, Crítico e Criativo — Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.
Objetivo: Investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções.

3.Repertório Cultural  Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.
Objetivo: Fruir e participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.

4.Comunicação — Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.
Objetivo: Expressar-se e partilhar informações, sentimentos, ideias, experiências e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.

5.Cultura Digital — Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.
Objetivo: Comunicar-se, acessar e produzir informações e conhecimento, resolver problemas e exercer protagonismo de autoria.

6.Trabalho e Projeto de Vida — Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
Objetivo: Entender o mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas à cidadania e ao seu projeto de vida com liberdade, autonomia, criticidade e responsabilidade.

7.Argumentação — Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
Objetivo: Formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns com base em direitos humanos, consciência socioambiental, consumo responsável e ética.

8.Autoconhecimento e Autocuidado — Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.
Objetivo: Cuidar da saúde física e emocional, reconhecendo suas emoções e a dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.

9.Empatia e Cooperação — Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.
Objetivo: Fazer-se respeitar e promover o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade, sem preconceito de qualquer natureza.

10.Responsabilidade e Cidadania — Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.
Objetivo: Tomar decisões com princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e democráticos.
Fontes: Texto da terceira versão da BNCC Infantil e Fundamental, MEC, Porvir e Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare e integrante do Movimento Pela Base (leitura crítica)

Fonte: Revista Educação

https://revistaeducacao.com.br/2018/10/05/bncc-competenciasgerais/

Como os sistemas de ensino ajudam as escolas a implantar a BNCC

Com a chegada da Base Nacional, as empresas de educação oferecem às instituições escolares propostas de conteúdo, formação continuada e consultorias que ajudem a fazer dessa oportunidade uma virada qualitativa na educação brasileira

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) acaba de entrar na educação infantil e no ensino fundamental. Em 2021, será obrigatória também para o ensino médio. Contudo, mesmo estando em implantação, dúvidas ainda são frequentes — e não são para menos, uma vez que tal mudança tem por objetivo transformar a educação brasileira. Educação entrou em contato com diretores de sistemas de ensino que revelam os anseios das escolas quanto à BNCC e explicam como seus produtos e serviços dialogam e sanam essas questões.

O primeiro passo, de entendimento sobre o que é a Base e como inseri-la no dia a dia escolar, está entre os principais questionamentos das escolas privadas que procuram pelos sistemas de ensino. A preocupação com os docentes também é unânime. “A formação dos professores em termos de novas abordagens, como o ensino menos focado em conteúdo e mais em habilidades e competências, tem gerado muitas dúvidas e está tirando muita gente da zona de conforto. Por isso, aqui na Eleva, estamos há dois anos investindo em formação nesse sentido, e tem dado bastante certo. Os professores estão começando a ver como uma oportunidade interessante de melhorar sua performance”, explica Carolina Pavanelli, diretora pedagógica da Plataforma de Ensino Eleva.

O principal desafio é por conta de os docentes terem se formado em um outro contexto, daí a necessidade de um apoio por meio da formação continuada. “A BNCC trata da disposição do conteúdo de forma espiralado. Antes a vertente era única. Por exemplo, porcentagem era dada só no 6º ano, agora é do 4º ao 9º ano, entre outras mudanças. Com isso, há uma dificuldade para esse professor se adaptar”, conta Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações educacionais no SAS Plataforma de Educação. Vale ressaltar que o SAS criou uma plataforma de ensino a distância (EAD) de formação continuada, o Focos, e os que percorrem todas as etapas ganham o selo “mestre BNCC” com certificação da Faculdade Ari de Sá.

Ainda em relação à aprendizagem, Ricardo Tavares, diretor-geral da FTD Sistema de Ensino, vai na mesma linha de Ademar ao complementar que: “por conta dessa reorganização entre disciplinas, outro ponto é como fazer a transição tomando cuidado para que os alunos não tenham repetição de conteúdo ou que fiquem sem o conteúdo necessário. Nas ciências houve uma grande reorganização. O 6º ano tinha seres vivos, 7º ano ar, água e solo, 8º corpo humano e 9º química e física. Com a Base, esses conteúdos foram distribuídos nos quatro anos, por isso o receio”, detalha.

Alinhamentos

O sistema de ensino brasileiro precisa estar em conformidade com as leis de educação brasileira. Por essa razão, desde que a Base começou a ser elaborada, ainda em 2015, muitas editoras e sistemas de ensino já estavam atentos às modificações e alertando suas equipes a acompanharem os processos — uma missão e tanto. No final de 2017, a parte do documento referente à educação infantil e ao ensino fundamental foi aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e oficializada pelo Ministério da Educação (MEC), sendo as escolas obrigadas a implantarem até o início de 2020.

Assim, os livros didáticos tiveram que ser reformulados. Uma mudança como essa, com qualidade, leva tempo, explica Mario Ghio, diretor-presidente da Somos Educação. “Todos os lançamentos editoriais que estão sendo feitos, adequados à BNCC, foram prototipados, pensados, discutidos no ciclo editorial de pelo menos três anos. Você tem um trabalho do próprio autor em que ele antes escrevia o que achava da disciplina. A partir da Base, o próprio autor tem que ser educado sobre qual é o objetivo de aprendizagem em uma determinada série de uma determinada disciplina. A gente começou a estudar a BNCC em conjunto com os autores dos materiais didáticos, desenhando o caminho e depois vem o processo editorial, o protótipo que a gente testa em algumas escolas antes de virar um produto que vai para o Brasil inteiro”, revela.

Com cerca de 100 marcas de sistema de ensino só no país, esse mercado representa mais de quatro milhões de estudantes do infantil ao médio, acrescenta Ghio.

“Conhecedora de que a Base é mais do que uma lista de conteúdos por componente curricular (disciplina) e ano escolar, a editora, desde a primeira versão do documento, em 2015, tem realizado estudos e discussões frequentes com seu time de profissionais responsáveis pela elaboração dos materiais didáticos nas diferentes áreas do conhecimento.  Com a homologação da BNCC, passou-se então à definição do novo projeto educacional para o portfólio de produtos e serviços do Piaget que atenda toda a educação básica”, relata Felippe Tribuzzi, supervisor pedagógico do J. Piaget Sistema de Ensino, mostrando consonância de acordo com a evolução da política pública.

Há 117 anos no setor e, atualmente, em 2.020 escolas privadas, atingindo, aproximadamente, 500.040 alunos (sem contar os números na rede pública), trabalho em equipe resume as ações da FTD para que seus produtos e serviços dialoguem com a BNCC. “Temos um grupo com mais de 300 profissionais, entre editores e especialistas da educação que respiram esse documento. Acho que o principal desafio é entender a realidade em que cada escola está inserida para assim, criarmos uma integração com o diretor, coordenador e professor e fazermos nosso papel personalizado e intensivo”, diz Ricardo Tavares.

Visão integral

As dez competências gerais e as habilidades socioemocionais são espelhos de que ser humano se quer formar e surgem diante da necessidade de uma educação para o século 21 não mais focada apenas na transmissão do conteúdo, mas em preparar o estudante para o mundo. “O compromisso com a educação integral do aluno passa pelo desenvolvimento das habilidades socioemocionais como inteligência emocional, empatia, pensamento crítico e criatividade, que desenvolvemos, principalmente, por meio do nosso programa socioemocional, criado em parceria pedagógica inédita com o Instituto Ayrton Senna”, conta Erika Lino, diretora das Escolas em Rede da Conexia Educação, que em três anos já conta com mais de 400 escolas e 150 mil alunos pelo país.

Já na Eleva, o LIV – Laboratório Inteligência de Vida –  é um programa socioemocional que ajuda estudantes a conhecerem seus sentimentos e a desenvolverem habilidades para a vida. “O objetivo é estimular a prática da empatia, da cooperação e do pensamento crítico, entre outras habilidades. Além disso, montamos um currículo e um material didático de cidadania para todo o ensino fundamental que, por meio de uma abordagem baseada em projetos, compreende quatro grandes ideias em cidadania: vida democrática, cidadania digital, empreendedorismo social e biotecnologia e meio ambiente”, detalha a diretora pedagógica.

O desenvolvimento de aptidões digitais é citado em quatro das dez competências gerais, tendo na quinta — Cultura Digital — destaque único, para o aluno, conforme aponta o documento: “compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva”.

Com tal colocação advinda da própria BNCC, é nítido para o Piaget que é papel da escola e do professor mostrar ao estudante as múltiplas possibilidades de uso das tecnologias, que vão muito além do lazer. “O material da empresa possui a cada volume a seção No mundo digital, justamente para atender a essas necessidades. O objetivo, ao longo dos anos, é apresentar aos alunos softwares, como o de edição, de apresentação e de planilhas, aplicativos, sites e jogos que possam ser usados para a realização de diversas tarefas escolares. Por meio das propostas, os alunos podem editar imagens e textos para produzir diferentes gêneros discursivos, gravar vídeos para simular, por exemplo, um telejornal, realizar pesquisas na internet, exercitar habilidades relacionadas à programação e ao pensamento computacional entre outras ações que enriquecem a aprendizagem”, complementa o supervisor pedagógico.

Já no SAS, entre suas ferramentas, a Eureka!, plataforma gamificada e adaptativa, dialoga com essa competência ao estimular nos jovens do 4º ao 9º ano o interesse pelo mundo da matemática, língua portuguesa, ciências, química, biologia e física via jogos. “O nível de engajamento é de 86%. Sugerimos essa plataforma como atividade complementar, mas que também seja utilizada pelo menos uma vez por semana. Tem escola que faz versão híbrida sala de aula e em casa. Em avaliações externas, os alunos engajados na Eureka! costumam se sair 20% melhor que os demais”, explica o diretor de ensino e inovações educacionais da empresa.

A Metodologia OPEE (Orientação Profissional, Empregabilidade e Empreendedorismo), idealizada pelo psicoterapeuta Leo Fraiman, dialoga com a competência que a Base descreve como Trabalho e Projeto de Vida. “Temos um material que mais de 50% das escolas adotam como complementar que é o Empreendedorismo e Projeto de Vida, do Leo Fraiman, e que com a FTD firmou parceria. O projeto OPEE contextualiza o dia a dia, por exemplo, o controle de finanças – tudo o que o aluno vive e vai viver na vida. Nesse contexto, as escolas trabalham uma aula por semana e quem orienta é um professor de qualquer disciplina eleito por ter uma visão aberta. O projeto conta com assessoria pedagógica exclusiva que trabalha só nesse cenário de desenvolvimento e também em formação com consultores”, descreve Ricardo Tavares, cuja OPEE é oferecida na Iônica, ambiente digital da empresa.

De olho na geração z

Muitas são as críticas ao modelo tradicional de ensino, aquele cujo professor é o centro e os estudantes ficam passivos. Contudo, envolver os jovens nem sempre é tarefa fácil. Na Conexia, o estímulo à aprendizagem e pensamento crítico ocorrem por meio de plataformas digitais que incentivam a autonomia dos meninos e meninas. “Em uma de nossas marcas, por exemplo, os estudantes da educação infantil trabalham por meio de projetos e são incentivados a expressarem suas ideias e acionar seus conhecimentos prévios a partir de uma situação apresentada. Em seguida, são questionados sobre ‘o que queremos saber’ e então, vão a campo explorar e buscar mais informações, de forma ativa e colaborativa. Por fim, são incentivados a refletirem e dialogarem sobre o aprendizado”, afirma Erika Lino.

Por falar em métodos atrativos de aprendizagem, Débora Aladim, com apenas 21 anos, é dona de um dos principais canais educativos do YouTube, com 2.048 mil inscritos e é parceira em ações estratégicas do Conexia. Aliás, na internet, o conteúdo da jovem é voltado a dicas para uma boa redação e em como conseguir estudar, além de resumos de fatos históricos.

Fonte: Revista Educação

https://revistaeducacao.com.br/2020/04/06/bncc-sistemas-de-ensino-mat/

Destruição de hábitats cria condições ideais para o surgimento do coronavírus

Destruição de biodiversidade causada por humanos leva a proliferação de espécies com maior probabilidade de transmitir novas doenças para nó.

Mayibout 2 não é um lugar saudável. As cerca de 150 pessoas que vivem na aldeia, que fica na margem sul do rio Ivindo, nas profundezas da grande floresta de Minkebe, no norte do Gabão, estão acostumadas a ataques ocasionais de doenças como malária, dengue, febre amarela e doença do sono. Na maior parte das vezes, elas apenas se conformam.

Mas em janeiro de 1996, o Ebola, um vírus mortal pouco conhecido pelos seres humanos,  se espalhou inesperadamente para fora da floresta através de uma onda de pequenas epidemias. A doença matou 21 dos 37 moradores que foram infectados, incluindo vários  que haviam transportado, esfolado, picado ou comido um chimpanzé  caçado na floresta próxima.

Eu viajei para Mayibout 2 em 2004 para investigar por que novas doenças, mortais  para o ser humano, estavam emergindo em ligares considerados como hotspots para a biodiversidade, como florestas tropicais e mercados de carne de animais selvagens nas cidades africanas e asiáticas.

Para chegar à vila demorou um dia de canoa, seguido de  muitas horas através de estradas degradadas pela floresta, passando pelas aldeias Baka e por uma pequena mina de ouro para . Lá, encontrei pessoas traumatizadas e ainda com medo do retorno do vírus mortal, que mata até 90% das pessoas infectadas.

Os moradores me disseram como as crianças haviam entrado na floresta junto com cães que mataram um chimpanzé. Eles disseram que todos que cozinharam ou comeram a carne do animal  tiveram uma febre terrível em poucas horas. Alguns morreram imediatamente, enquanto outros foram levados rio abaixo para o hospital. Alguns, como Nesto Bematsick, se recuperaram. “Costumávamos amar a floresta, agora a tememos”, ele me disse. Muitos membros da família de Bematsick morreram.

Há apenas uma ou duas décadas, acreditava-se amplamente que florestas tropicais e ambientes naturais intactos, repletos de fauna exótica, eram uma ameaça ao ser humano,pois abrigavam  vírus e patógenos que causam  novas doenças, como Ebola, HIV e dengue.

Hoje, porém, vários pesquisadores pensam que é realmente a destruição da biodiversidade pela humanidade que cria as condições para o surgimento de novos vírus e doenças como o COVID-19, a doença viral que surgiu na China em dezembro de 2019 – e geram  profundos impactos econômicos e de saúde tanto nos países  ricos como nos pobres. De fato, está emergindo uma nova disciplina, a saúde planetária, que se concentra nas conexões cada vez mais visíveis entre o bem-estar dos seres humanos com o estado de  outros seres vivos, e até de ecossistemas inteiros.

Será possível que  atividades humanas como a construção de estradas, a mineração, a caça e a extração de madeira tenham desencadeado  as epidemias de Ebola em Mayibout 2 e em outros lugares nos anos 90, e que estejam causando hoje o surgimento de novos terrores?

“Invadimos florestas tropicais e outras paisagens selvagens, que abrigam inúmeras  espécies de animais e plantas. E dentro dessas criaturas havia tantos vírus desconhecidos”, escreveu recentemente no jornal The New York Times David Quammen, autor de “Spillover: Infecções animais e a próxima pandemia”.  “Cortamos as árvores; matamos  ou os engaiolamos os animais, e os enviamos aos mercados. Rompemos os ecossistemas e liberamos os vírus de seus hospedeiros naturais. Quando isso acontece, eles precisam de um novo hospedeiro. Muitas vezes, este seremos nós.”

 

AMEAÇA CRESCENTE

Pesquisas sugerem que os surtos de doenças transmitidas por animais e outras doenças infecciosas como Ebola, SARS, gripe aviária e agora o COVID-19, causado por um novo coronavírus, estão aumentando. Os patógenos estão passando de animais para humanos, e muitos agora podem se espalhar rapidamente para novos lugares. O Centro  para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) estima que três quartos das doenças “novas ou emergentes” que infectam seres humanos se originam em animais não humanos.

Algumas, como a raiva e a peste, atravessaram o fosso entre animais e homens há séculos. Outras, como o vírus de Marburg, que se acredita serem transmitidos por morcegos, ainda são raras. E outras,  como a COVID-19, que surgiu no ano passado em Wuhan, na China, e o MERS, que está ligado a camelos no Oriente Médio, são novos para os seres humanos e estão se espalhando globalmente.

Outras doenças que alcançaram o homem  incluem a febre de Lassa, que foi identificada pela primeira vez em 1969 na Nigéria; a Nipah, da Malásia; e a SARS, da China, que matou mais de 700 pessoas e viajou para 30 países em 2002-03. Alguns vírus, como o zika e o vírus do Nilo Ocidental, que surgiu na África, sofreram mutações e se estabeleceram em outros continentes.

Kate Jones, que é  chefe do departamento de ecologia e biodiversidade do University College London, na Inglaterra, chama as doenças infecciosas emergentes de origem animal como “uma ameaça crescente e muito significativa para a saúde, segurança e economias globais”.

 

UM EFEITO MAIOR

Em 2008, Jones e uma equipe de pesquisadores identificaram 335 doenças que surgiram entre 1960 e 2004, das quais pelo menos 60% vieram de animais não humanos.

Cada vez mais, diz Jones, essas doenças zoonóticas estão ligadas às mudanças ambientais e ao comportamento humano. A intrusão em florestas intocadas motivada pela  extração de madeira, a mineração, a construção de estradas em lugares remotos, a rápida urbanização e o crescimento populacional estão aproximando o ser humano de  espécies animais antes distantes, diz ela.

Ela diz que a consequente transmissão de doenças da vida selvagem para os seres humanos agora é “um custo oculto do desenvolvimento econômico humano. Há muito mais de nós em todos os ambientes. Estamos entrando em lugares praticamente imperturbáveis e sendo expostos cada vez mais. Estamos criando habitats onde os vírus são transmitidos mais facilmente e, em seguida, nos surpreendemos por termos novas doenças. ”

Jones estuda como a mudança no uso da terra contribui para o risco. “Estamos pesquisando como é provável que espécies que vivem em hábitats degradados carreguem mais vírus capazes de  infectar seres humanos”, diz ela. “Em sistemas mais simples o efeito é maior. Uma vez destruída a paisagem, as espécies remanescentes são as que vão passar vírus para os seres humanos.”

“Existem inúmeros patógenos por aí que continuam a evoluir, que em algum momento podem representar uma ameaça para os seres humanos”, diz Eric Fevre, chefe do setor de  doenças infecciosas veterinárias no Instituto de Infecção e Saúde Global da Universidade de Liverpool. “O risco [de patógenos passarem de animais para humanos] sempre esteve presente”.

A diferença entre agora e algumas décadas atrás, diz Fevre, é que as doenças provavelmente surgirão tanto no ambiente urbano quanto na natureza. “Criamos áreas densamente populosas onde existem, ao nosso lado, morcegos, roedores e pássaros, animais de estimação e outros seres vivos. Isso cria uma intensa interação e oportunidades para que as coisas se movam de uma espécie para outra”, diz ele.

 

PONTA DO ICEBERG

“Os patógenos não respeitam os limites das espécies”, diz o ecologista Thomas Gillespie, professor associado do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Emory, que estuda como a redução de hábitats naturais e a mudança de comportamento aumentam os riscos de doenças que passam  de animais para seres humanos.

“Não estou surpreso com o surto de coronavírus”, diz ele. “A maioria dos patógenos ainda não foi descoberta. Estamos ainda na ponta do iceberg.”

Os humanos, diz Gillespie, estão criando as condições para que as doenças se propaguem,  reduzindo as barreiras naturais entre os animais hospedeiros dos vírus – nos quais os vírus circulam naturalmente – e nós. “Esperávamos com certeza  a chegada da gripe pandêmica; podemos esperar uma mortalidade humana em larga escala; podemos esperar outros patógenos com outros impactos. Uma doença como o Ebola não se espalha facilmente. Mas algo com uma taxa de mortalidade com a do Ebola, e que consiga se  espalhar tanto como o sarampo, seria catastrófico ”, diz Gillespie.

Em todos os lugares, a vida selvagem  está  sob mais estresse, diz ele. “As grandes mudanças na paisagem estão fazendo com que os animais percam hábitats, o que significa que as espécies se aglomeram e também têm  maior contato com os seres humanos. As espécies que sobrevivem à mudança estão agora se movendo e se misturando com diferentes animais e com seres humanos. ”

Gillespie vê isso nos EUA, onde subúrbios que levam a fragmentação de  florestas aumentam o risco de os humanos contraírem a doença de Lyme. “Alterar o ecossistema afeta o ciclo complexo do patógeno Lyme. As pessoas que moram perto têm mais chances de serem picadas por um carrapato que carrega as bactérias Lyme”, diz ele.

No entanto, os estudos sobre  saúde humana raramente consideram os ecossistemas naturais circundantes, diz Richard Ostfeld, distinto cientista sênior do Instituto Cary de Estudos sobre Ecossistemas, em Millbrook, Nova York. Ele e outros estão desenvolvendo a nova disciplina chamada  saúde planetária, que analisa os vínculos entre a saúde humana e os ecossistemas.

“Existe uma má compreensão entre os cientistas e o público de que os ecossistemas naturais são a fonte de ameaças para nós mesmos. É um erro. A natureza representa ameaças, é verdade, mas são as atividades humanas que causam o dano real. Os riscos à saúde em um ambiente natural podem ser muito piores quando interferimos ”, diz ele.

Ostfeld aponta para ratos e morcegos, que estão fortemente ligados à disseminação direta e indireta de doenças zoonóticas. “Roedores e alguns morcegos prosperam quando perturbamos os hábitats naturais. Eles são os mais propensos a promover transmissões [de patógenos]. Quanto mais perturbamos as florestas e os hábitats, maior o risco que enfrentamos ”, diz ele.

Felicia Keesing, professora de biologia no Bard College, Nova York, estuda como as mudanças ambientais influenciam a probabilidade de que os humanos sejam expostos a doenças infecciosas. “Quando erodimos a biodiversidade, vemos uma proliferação das espécies com maior probabilidade de transmitir novas doenças para nós, mas também há boas evidências de que essas mesmas espécies sejam os melhores hospedeiros para as doenças existentes”, ela escreveu em um email para Ensia.

 

A CONEXÃO DOS MERCADOS

Os ecologistas de doenças argumentam que é provável que vírus e outros patógenos também passem de animais para humanos em muitos mercados informais que surgiram para fornecer carne fresca a populações urbanas em rápido crescimento em todo o mundo. Neles, os animais são abatidos, cortados e vendidos no local.

O “mercado úmido” (que vende produtos frescos e carne) em Wuhan, considerado pelo governo chinês como o ponto de partida da atual pandemia do COVID-19, era conhecido por vender vários animais selvagens, incluindo filhotes de lobo vivos, salamandras, crocodilos, escorpiões, ratos, esquilos, raposas e tartarugas.

Também na África ocidental e na África central, os mercados urbanos  veem macacos, morcegos, ratos e dezenas de espécies de aves, mamíferos, insetos e roedores serem abatidos e vendidos perto de lixões abertos e sem drenagem.

“Os mercados úmidos são uma tempestade perfeita para a transmissão de patógenos entre espécies”, diz Gillespie. “Sempre que você tiver novas interações com uma variedade de espécies em um só lugar, seja em um ambiente natural como uma floresta ou um mercado úmido, poderá ocorrer um evento de transmissão entre espécies”.

O mercado de Wuhan, juntamente com outros que vendem animais vivos, foi fechado pelas autoridades chinesas, e em fevereiro o governo proibiu o comércio e a ingestão de animais silvestres, exceto peixes e frutos do mar. Mas a proibição de venda de animais vivos em áreas urbanas ou mercados informais não é a resposta, dizem alguns cientistas.

“O mercado úmido em Lagos é notório. É como uma bomba nuclear esperando para acontecer. Mas não é justo demonizar lugares que não têm geladeiras. Esses mercados tradicionais fornecem boa parte da comida para a África e a Ásia ”, diz Jones.

“Esses mercados são fontes essenciais de alimento para centenas de milhões de pessoas pobres, e é impossível se livrar deles”, diz Delia Grace, epidemiologista e veterinária do Instituto Internacional de Pesquisa em Pecuária, com sede em Nairobi, Quênia. Ela argumenta que as proibições forçam os comerciantes à clandestinidade, onde eles podem prestar menos atenção à higiene.

Fevre e Cecilia Tacoli, pesquisadora principal do grupo de pesquisa em assentamentos humanos do Instituto Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED), argumentam em um post de blog que “em vez de apontar o dedo para mercados úmidos”, devemos considerar o crescente comércio de animais selvagens.

“[São] os animais selvagens, e não os animais de criação, que são os hospedeiros naturais de muitos vírus”, escrevem eles. “Os mercados úmidos são considerados parte do comércio informal de alimentos, geralmente culpado por contribuir para a disseminação de doenças. Mas … as evidências mostram que a ligação entre mercados informais e doenças nem sempre é tão clara. ”

 

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

Então, o que se pode fazer?

Jones diz que a mudança deve vir de sociedades ricas e pobres. A demanda por madeira, minerais e recursos do Norte Global leva a paisagens degradadas e a perturbações ecológicas que causam doenças, diz ela. “Precisamos pensar em biossegurança global, encontrar os pontos fracos e reforçar a prestação de cuidados de saúde nos países em desenvolvimento. Caso contrário, podemos esperar mais eventos”, diz ela.

“Os riscos são maiores agora. Eles sempre estiveram presentes e estão lá há gerações. São as nossas interações com esse risco que devem ser alteradas ”, diz Brian Bird, um virologista da Universidade da Califórnia, Escola de Medicina Veterinária Davis One Health Institute, onde lidera atividades de vigilância relacionadas ao Ebola na Serra Leoa e em outros lugares.

“Estamos em uma era agora de emergência crônica”, diz Bird. “É mais provável que as doenças viajem mais e mais rápido do que antes, o que significa que devemos ser mais rápidos em nossas respostas. Precisa de investimentos, mudança no comportamento humano e significa que devemos ouvir as pessoas no nível de comunidades.”

Passar a mensagem sobre patógenos e doenças para caçadores, madeireiros, comerciantes e consumidores é fundamental, diz Bird. “Essas repercussões começam com uma ou duas pessoas. As soluções começam com educação e conscientização. Precisamos conscientizar as pessoas de que as coisas estão diferentes agora. Aprendi trabalhando na Serra Leoa com pessoas afetadas pelo ebola que as comunidades locais têm fome e desejam ter informações ”, diz ele. “Eles querem saber o que fazer. Eles querem aprender.”

Fevre e Tacoli defendem repensar a infraestrutura urbana, particularmente em assentamentos de baixa renda e informais. “Os esforços de curto prazo estão focados em conter a propagação da infecção”, eles escrevem. “A longo prazo – dado que novas doenças infecciosas provavelmente continuarão a se espalhar rapidamente dentro e dentro das cidades – será precis rever as abordagens atuais de planejamento e desenvolvimento urbano”.

Em síntese, é preciso nos prepararmos,  diz Bird. “Não podemos prever de onde virá a próxima pandemia, por isso precisamos de planos de mitigação para levar em consideração os piores cenários possíveis”, diz ele. “A única coisa certa é que a próxima certamente virá.”

Scientific American Brasil  

 

Que está de fato impedindo as mulheres de avançar?

Como estudiosos da desigualdade de gênero no mundo empresarial, é comum sermos chamados para investigar por que é difícil reter mulheres e promovê-las ao nível sênior. É um problema generalizado. As mulheres conseguiram progressos notáveis no acesso a posições de poder e autoridade nas décadas de 1970 e 1980, mas esses progressos diminuíram consideravelmente na década de 1990 e pararam de vez neste século.

Pergunte por que as mulheres continuam a ser tão sub-representadas e ouvirá da grande maioria das pessoas somente um lamento — uma “verdade” deplorável, mas inevitável — que pode ser traduzido assim: “os empregos de alto nível exigem longas jornadas de trabalho, o que impede as mulheres que se dedicam à família de cumpri-las. Consequentemente, a carreira delas fica prejudicada”. Chamamos essa explicação de narrativa do trabalho/família. Numa pesquisa realizada em 2012 com mais de 6.500 alunos da Harvard Business School de diferentes setores, esta narrativa foi utilizada por 73% dos homens e 85% das mulheres para explicar a estagnação do avanço prosissional feminino. No entanto, acreditando que a explicação possa não corresponder à verdade, nossa pesquisa a analisa seriamente.

Ouvimos essa explicação há alguns anos de uma empresa de consultoria que, por não ter sido bem-sucedida com as soluções disponíveis no mercado, procurou nossa ajuda para entender como sua cultura poderia estar prejudicando suas funcionárias. A empresa recruta seu pessoal em faculdades de elite e programas de MBA e está posicionada no topo da lista das consultorias mais prestigiadas, mas como a maioria das empresas de serviços profissionais, tem poucas mulheres como sócios.

Trabalhamos com a empresa durante 18 meses, e nesse período entrevistamos 107 consultores — homens e mulheres, sócios e associados. Praticamente todos recorreram a alguma versão da narrativa trabalho/família para explicar a falta de sócias. Mas como relatamos no ano passado para nossa colega Erin Reid, quanto mais tempo convivíamos com as pessoas na empresa, mais percebíamos que suas explicações não correspondiam aos dados. As mulheres não eram impedidas de progredir por não conseguirem equilibrar as demandas competitivas do trabalho e da família — os homens sofriam igualmente com tal desequilíbrio, mas, apesar disso, progrediam na carreira. As mulheres eram coibidas, porque, ao contrário dos homens, elas eram encorajadas a aceitar acordos, como trabalhar em tempo parcial e assumir funções internas, que prejudicavam sua carreira. O verdadeiro culpado era uma cultura geral de excesso de trabalho que atingia tanto homens como mulheres e perpetuava a desigualdade de gênero em vigor.

O que as pessoas revelaram — e os dados mostraram

Os dados da empresa mostraram de várias formas uma realidade bem diferente das histórias contadas pelos funcionários — e a si mesmos. A contradição que observamos nos fez questionar por que tais histórias estavam tão presentes — mesmo entre os analistas da empresa totalmente envolvidos com os dados e que deveriam considerá-las pura ficção.

Vamos começar pela retenção. Embora a empresa tenha nos procurado, entre outras razões, para tentar resolver o problema da “taxa mais alta de rotatividade das mulheres”, quando analisamos em minúcias os dados dos últimos três anos, descobrimos que não havia praticamente nenhuma diferença na rotatividade de homens e de mulheres.

Outra inconsistência: embora os membros da empresa atribuíssem a angústia em relação ao conflito trabalho/família basicamente às mulheres, descobrimos que também muitos homens se sentiam angustiados. “Eu tinha de viajar três dias por semana, e via meus filhos só uma ou duas vezes por semana durante 45 minutos antes de irem dormir”, nos revelou um funcionário. Ele se lembrou com muita tristeza de determinado sábado quando disse a seu filho que não poderia ir ao jogo de futebol. “Ele caiu em prantos. Eu tive vontade de desistir de tudo naquele momento.” Cerca de 70% dos associados com quem conversamos que eram pais relataram esse tipo de conflito trabalho/família, mas somente um estava tomando providências para minimizá-lo.

Os acordos eram outro ponto em que a narrativa da empresa não se alinhava com os dados. Os funcionários que se beneficiavam com eles — praticamente só mulheres — eram estigmatizados e viam a própria carreira estagnar. As consequências para as mulheres, individualmente, eram sacrifícios relacionados a poder, status e salários. Coletivamente, entretanto, significava a continuidade de um padrão no qual as posições de poder permaneciam na mão dos homens. De forma perversa, em sua tentativa de resolver o problema da dificuldade do progresso das mulheres, a empresa o estava perpetuando.

Notamos divergências na própria retórica do trabalho/família. Veja como um homem resumiu o problema: “As mulheres terão filhos e não vão querer trabalhar, ou terão filhos e vão querer trabalhar, mas não vão querer viajar todas as semanas e manter o estilo de vida que a consultoria exige, de 60 ou 70 horas por semana”. Absolutamente convencido de que as preferências pessoais das mulheres eram o obstáculo para seu sucesso, ele não levou em conta algumas exceções, como mulheres sem filhos, cujos antecedentes de promoção não eram melhores que os de mulheres que eram mães. Segundo ele, todas as mulheres eram mães, uma generalização comum em nossas entrevistas. Mulheres sem filhos nunca apareciam nos relatos dos entrevistados, talvez porque elas contradiziam a narrativa trabalho/família.

Na discordância final, muitas pessoas com quem conversamos descreveram experiências que questionavam a premissa básica da narrativa trabalho/família: jornadas de trabalho 24/7 eram inevitáveis. Elas relataram as longas horas que dedicaram a práticas desnecessárias e onerosas, das quais a principal era vender e entregar mais do que podiam. Ouvimos muitas histórias de sócios que, como disse um associado, “prometiam o céu aos clientes” sem pensar quanto tempo e energia seriam necessários para cumprir a promessa. O discurso era mais ou menos assim, disse-nos um sócio: “Faremos X, Y e Z, e tudo na metade do tempo que você pensa que levaria”. Os clientes ficavam impressionados e mal podiam esperar a hora de assinar os contratos.

Os associados eram pressionados a continuar com a sobrecarga porque queriam destacar-se como estrelas entre seus colegas mais qualificados. “Fazemos essas apresentações malucas que levam horas e horas de trabalho”, comentou um deles. “Queremos arrasar, impressionar os clientes com nossas apresentações com 100 slides cada uma”. Mas os clientes não podem usar todos!” E uma associada falou, com tristeza, dos fins de semana que dedicava a tarefas desse tipo. “Eu trabalhava muito, mas muito mesmo”, ela desabafou, “e sacrificava compromissos familiares, sacrificava minha saúde, e no fim do dia eu olhava para trás e pensava se de fato eu precisava fazer tudo aquilo. Provavelmente não.”

Mostramos tais inconsistências aos líderes da empresa, observando que a narrativa do trabalho/família era simplista demais e oferecendo uma explicação mais ampla, mais flexível, baseada em dados: o que realmente impedia as mulheres de avançar era a cultura opressiva da empresa, que impunha a sobrecarga de trabalho. Explicamos que jornadas extremamente longas e desnecessárias eram prejudiciais a todos, mas as mulheres é que eram prejudicadas mais que os homens, porque, ao contrário deles, muitas aceitavam acordos, o que as impedia de progredir profissionalmente.

Tudo isso levou ao que para nós era uma conclusão inevitável: para a empresa poder resolver o problema de gênero, teria de resolver o problema das longas jornadas de trabalho. E a forma de começar seria parar de vender e entregar mais do que podiam.

Os líderes reagiram negativamente ao feedback. Eles continuavam insistindo que as mulheres não evoluíam na carreira porque não conseguiam equilibrar as necessidades profissionais e familiares, e insistiam que qualquer solução deveria visar especificamente as mulheres. Incapazes de convencê-los do contrário, sentimo-nos derrotados por não podermos ajudá-los, e nosso trabalho foi efetivamente encerrado.

Mas continuamos a refletir sobre o problema. Os líderes da empresa eram inteligentes, bem-intencionados, com mentalidade empírica, mas ignoraram os dados e por reflexo se prenderam a uma crença empiricamente duvidosa da narrativa trabalho/família. Esclarecidos como eram, era um enigma por que continuavam a insistir numa “solução” que só perpetuava o problema.

A empresa não era atípica nesse aspecto. A pesquisa mostra que culturas 24/7 criam descontentamentos tanto em homens quanto em mulheres, e que a solução de “acordos”, ironicamente, tende a prejudicar a carreira de mulheres extremamente qualificadas, deixando os escalões seniores das empresas desprovidos de suas estrelas mais brilhantes. Estudos mostram outra ironia: longas jornadas de trabalho não aumentam a produtividade. Na verdade, provocam pior desempenho e aumento nos custos de licenças por motivo de saúde.

Considerando tais aspectos negativos, perguntamos: por que as empresas insistem nesta narrativa do equilíbrio trabalho/família e ignoram a possibilidade de instituir jornadas de trabalho mais humanas?

Acreditamos que a resposta esconde alguma coisa mais profunda — não somente na empresa nossa cliente, mas genericamente, na cultura corporativa. Talvez essa narrativa seja tão comum e persistente porque alimenta um elaborado sistema de defesa social e psicológica que protege tanto mulheres como homens das emoções perturbadoras surgidas da obrigação de longas jornadas de trabalho. E decidimos investigar.

Defesas psicológicas inconscientes e crenças universais

Refletimos sobre os relatos de nossos entrevistados, desta vez observando atentamente não só o que eles disseram (ou não), mas também a forma como disseram. O exercício foi esclarecedor. Consciente ou inconscientemente, praticamente todos os funcionários com quem conversamos revelaram o dilema emocional que enfrentavam por causa da constante exigência de disponibilidade 24/7 imposta pela empresa e as escolhas diárias que eram obrigados a fazer entre a vida familiar e a vida profissional. O mal-estar assim criado preparou o cenário para que medidas protetivas começassem a surgir — medidas que evitariam que os altos executivos tivessem de enfrentar não só as escolhas difíceis às quais submetiam seus funcionários como também o ônus, a ser arcado também pelos funcionários.

O estopim dessas medidas protetivas foi a crença na dedicação natural das mulheres à família — e dos homens ao trabalho. Em relação aos funcionários, tais medidas apareceram como mecanismos psicológicos de defesa inconscientes que intensificavam a separação de gênero na questão trabalho/família. Em relação à organização, surgiram como convicções universalmente aceitas no mundo corporativo e na forma de políticas que, como os acordos, usurpavam efetivamente das mulheres a possibilidade de tornar-se sócias. No nível dos funcionários e no da empresa como um todo, estas dinâmicas operavam juntas para criar um sistema corporativo de defesa social.

Todas as partes se beneficiavam com essas medidas no curto prazo. Os líderes empresariais poderiam se eximir da responsabilidade pela falta de sócias, com o argumento de que era inevitável. Os funcionários poderiam criar uma espécie de paz com suas decisões: os homens justificariam como inevitáveis os sacrifícios que faziam para progredir na carreira, e as mulheres justificariam como naturais os sacrifícios que faziam. E, enquanto isso, a cultura de longas jornadas de trabalho continuava intocada.

Mas como todas as manobras defensivas, esse sistema de defesa social não vingou. Os conflitos relegados ao inconsciente mal se escondiam. Eles não foram resolvidos, e as angústias atiçavam continuamente a percepção consciente, vivida de forma diferente por mulheres e por homens.

O problema para os homens

Em culturas de longas jornadas de trabalho, os homens têm uma identidade primária: a de funcionários ideais, completamente comprometidos e totalmente disponíveis. Para poderem ajustar-se a esta imagem eles adotam a postura psicológica de “meu trabalho é tudo o que importa”. Identidades não profissionais, independentemente de serem pessoalmente significativas, tornam-se eventuais e secundárias. Obviamente, a necessidade de ser o funcionário ideal gera conflitos internos, principalmente para os familiares.

Os homens com quem conversamos sentiam-se claramente culpados em relação ao pouco tempo que passavam com a família. Eles expressaram pungentemente seus profundos laços emocionais familiares, e descreveram
em minúcias de cortar o coração suas interações com os filhos decepcionados.

Eles recorriam à seguinte tática psicológica para lidar com suas emoções: compartilhavam sua culpa e tristeza com as colegas mulheres, nelas projetando estes sentimentos, e identificavam-se com elas com certo distanciamento. Pense na ginástica psicológica feita por um homem ao se basear na narrativa trabalho/família para explicar a dificuldade de promoção das mulheres na empresa. “Do fundo do coração eu acredito que as mulheres enfrentam desafios diferentes. Existe uma conspiração da sociedade de que é a mulher que precisa de longas licenças-maternidade e de que tem determinadas necessidades biológicas. Quando minha primeira filha nasceu, eu a carreguei da sala de parto até o berçário. É como se eu pudesse sentir as substâncias químicas sendo liberadas no meu cérebro. Eu me senti tão profunda e quimicamente apaixonado pela minha filha. Eu não podia imaginar o mundo sem ela. Isso aconteceu somente nos seus oito primeiros minutos de vida. Eu pensei ‘como seria possível eu largar tudo isto e voltar a trabalhar?’.”

Mas ele voltou. E qual foi a lição que tirou desta experiência tão cheia de emoções? Uma sensação de que agora ele entende melhor as dificuldades que as mulheres enfrentam para tentar contrabalançar a vida profissional e a vida familiar. Para se livrar de sua culpa e tristeza ao retornar à sua exaustiva semana de trabalho, ele projetou sua intensa experiência emocional nas mulheres da empresa — uma atitude que lhe permitiu abandonar tais sentimentos, mas ainda se identificar com elas.

Vamos vasculhar sua história. Ele começou fazendo uma distinção entre mulheres e homens, associando maternidade à biologia. São as mulheres, não os homens, que passam pela maternidade. De repente ele mudou de assunto, e começou a falar de sua própria experiência de paternidade intensamente emocional e biologicamente determinada, mas depois mudou o rumo da conversa novamente, distanciando-se da experiência e projetando-a nas mulheres. Na verdade, o que ele disse foi “eu vivi a experiência, mas ela já passou, fui um turista nesta viagem emocional e estou em condições de entender o que acontece com as mulheres”. Em outras palavras, as emoções que vivenciou já não eram dele. Pertenciam às mulheres.

Nesse momento, ele mudou o rumo da conversa novamente, falando do mundo do trabalho dominado por homens. Ele nos falou da época em que trabalhou na indústria de cervejarias, um ramo que, segundo ele, era formado por “homens que davam tapinhas nas costas um do outro e falavam sobre golfe e coisas do tipo”. Nas palavras dele, nesse ambiente não havia espaço para a experiência emocional da paternidade, o que ele implicitamente relegava para o mundo das mulheres. Segundo ele, homens e mulheres simplesmente se comprometem de formas diferentes com o trabalho e com a família. “Não consigo pensar em um único caso em que o pai tirou seis meses de licença-paternidade para cuidar da criança enquanto a mãe voltava ao trabalho”, ele ironizou.

Esse homem não estava sozinho ao colocar sobre os ombros das mulheres a carga organizacional das angústias causadas pelo pouco tempo dedicado à família. A defesa psicológica deu a muitos homens na empresa a ilusão de uma vida plena e permitiu que eles se comportassem como os funcionários comprometidos que a empresa tanto preza. Mas a defesa foi só um paliativo. Na verdade, as exigências reais e persistentes da família não eram assim tão facilmente afastadas.

O problema para as mulheres

As mulheres experimentam uma tensão psíquica diferente. De acordo com a narrativa do trabalho/família e noções culturais mais amplas, seu comprometimento com a família é primário por natureza, por isso seu comprometimento com o trabalho precisa ser secundário. Esperava-se que elas adotassem uma abordagem mais decisiva para a maternidade, “o mais importante é minha família”, uma postura encorajada pelos acordos prontamente acessíveis que a empresa oferece. Mas colocar a família em primeiro lugar representa para elas um ônus significativo na carreira e a renúncia de suas ambições profissionais.

A maior parte das mulheres na empresa havia conquistado certo sucesso profissional e resistia à ideia de ser do lar, o que agravou ainda mais essa tensão. Elas cumpriam as obrigações relacionadas à família de bom grado, mas eram claramente contra a ideia de isolar o fator trabalho de sua identidade.

Essa ambivalência é clara no relato de uma mãe sobre sua incapacidade de reduzir as responsabilidades no âmbito doméstico, apesar de seu marido ser muito dedicado à família. “Só existe uma diferença na forma como a mãe e o pai encaram seus filhos e seu senso de responsabilidade. Penso que meu lado masculino pode se desconectar com facilidade do que está acontecendo em casa. E se eu me desconectasse, as coisas não desmoronariam, mas eu não me sentiria bem, então isso simplesmente não vai acontecer.” No entanto, também o seu comprometimento com o trabalho era forte, deixando-a numa encruzilhada, sem saber se as responsabilidades para com a família lhe dariam espaço para desenvolver-se profissionalmente. “Eu sei que vou tropeçar de vez em quando”, ela observou: “Eu sei que preciso aprender, eu não duvido de mim mesma. É mais que necessidade de aprender, é necessidade de crescer. Geralmente eu duvido de minha capacidade de honrar os compromissos profissionais e, ao mesmo tempo, honrar os compromissos que assumi com minha família. Esta preocupação é constante”. A ambivalência que ela sentia em relação à carreira foi completamente exposta. Ela abraçou sua identidade de família, mas não queria abrir mão de sua identidade profissional, e é por isso que ela disse que não duvidava de si mesma, mas depois continuou, afirmando que duvidava.

Muitas outras mulheres na empresa sofreram com a imposição implícita de rejeitar o papel de profissionais ambiciosas. Elas cumpriam de boa vontade a ordem cultural de serem as cuidadoras primárias do lar, permitindo que os homens identificassem indiretamente aquele aspecto dividido delas mesmas —, mas elas não perderam sua identidade profissional. Dessa forma, a solução psicológica encontrada pelos homens ao fazerem a escolha “certa” de comprometer-se inteiramente com sua identidade profissional não estava disponível para as mulheres, que haviam feito a escolha “errada” por não comprometer-se completamente com a identidade familiar. Profissionais mulheres nesta situação acabam construindo uma identidade contraditória que as obriga a questionar constantemente se deveriam diminuir suas aspirações de carreira.

Além dessas tensões, havia na empresa lembretes frequentes de que as mulheres, porque trabalhavam, estavam no lugar errado, e não em casa — eram fatores de pressão que as mulheres tinham de suportar se quisessem manter no trabalho sua identidade de profissionais ambiciosas.

O poder dos fatores de pressão

Um fator particularmente forte de pressão que as mulheres tiveram de enfrentar foram os acordos trabalho/família. Trabalhar em tempo parcial ou exercer funções internas representa uma saída conveniente para evitar o excesso de trabalho, mas isso estigmatiza as mulheres e prejudica sua carreira. As sócias que aceitaram acordos sentiam-se alijadas da empresa. Sócias que preferiram acordos desviavam-se da rota do verdadeiro poder.

Muitas relataram ter de resistir a um segundo fator de pressão: abdicar do que entendiam como seu estilo relacional em prol do estilo “masculino”, extremamente agressivo, que a empresa venerava nas interações com os clientes. Uma sócia nos revelou que um antigo mentor a alertou que confiar nas suas habilidades aprimoradas de criar relacionamentos transmitiria a possíveis clientes que “em você não existe muita coisa entre as orelhas”. Em outras palavras, seu arsenal de habilidades não dava conta do recado. Avaliações como essa afrouxam a identificação das mulheres com o trabalho, e, ao mesmo tempo, estimula a adoção de um estilo associado aos homens, encorajando-as a recuar ainda mais.

O terceiro fator de pressão foi a má reputação como mães das sócias com filhos. Havia mulheres fantásticas que conquistaram rapidamente sua identidade profissional e obtiveram reconhecimento e sucesso — conquistas que contradiziam a ideia de que é impossível conciliar trabalho e família. Elas até poderiam ser consideradas exemplares, mas eram rotineiramente descritas como mães que deixavam a desejar — mulheres “horríveis” que não constituíam “bons exemplos de mães que trabalham”. Para as jovens que precisam decidir entre ser boas mães e ter carreira de sucesso, a condenação implica que o comprometimento profissional cobra um alto ônus.

Como esses fatores de pressão constantemente lembram às mulheres que elas não pertencem ao ambiente profissional, não é de admirar que, muitas vezes, elas sejam ambivalentes em seu comprometimento com a carreira. Enfrentar o problema das longas jornadas de trabalho é um dilema para elas: se respondem ao apelo da família aceitando um acordo de regime de trabalho, comprometem seu status profissional; mas se elas se recusam a aceitar acordos em prol de suas ambições profissionais, comprometem seu status de boas mães. Por isso, são vistas como profissionais medíocres ou mães ruins — ou ambos. O dilema permite que a cultura do excesso de trabalho continue inabalada e que as empresas dissimulem sua responsabilidade por impedir o avanço delas, além de perpetuar a desigualdade de gênero em vigor. A história diz que as mulheres podem escolher à vontade os problemas de trabalho/família, e é assim que a banda toca.

Sistemas de defesa social são traiçoeiros. Eles desviam a atenção do problema central que provoca ansiedade substituindo-o por outro problema que causa menos ansiedade. Na empresa de nosso cliente, o principal problema eram as jornadas de trabalho incrivelmente longas, e o problema substituto era a incapacidade de a empresa promover as mulheres. Ao apresentar a possibilidade de acordos trabalho/família como solução para substituir o problema, a empresa aderiu a um sistema de defesa social invisível e autoalimentado — que camuflava práticas de trabalho ineficientes na retórica da necessidade e, ao mesmo tempo, perpetuava as disparidades de gênero. Essa atitude criou para os líderes da empresa um problema insolúvel — um motivo de preocupação sempre presente — que impedia que todos enfrentassem o principal problema. Como resultado, duas ideologias que apoiavam o statu quo eram intensamente mantidas e continuavam em vigor: longas jornadas de trabalho eram necessárias e a estagnação do progresso das mulheres era inevitável.

Nossas descobertas se alinham com o consenso crescente entre os estudiosos de gênero: o que mantém as mulheres no trabalho não é um desafio único para conciliar vida profissional e vida familiar, mas um problema geral de excesso de trabalho que prevalece na cultura corporativa contemporânea.

Como resultado, tanto mulheres como homens são vítimas. Mas as mulheres arcam com um ônus profissional mais alto. Se quisermos resolver este problema, precisaremos reconsiderar o que queremos que a empresa exija dos funcionários. A reconsideração é possível. Na medida em que os funcionários e suas famílias questionarem o excesso de trabalho, eles deixarão o caminho pronto para as próximas gerações. E na medida em que mais pesquisas mostrarem às empresas as vantagens de jornadas razoáveis de trabalho, alguns empregadores acabarão questionando a validade das jornadas excessivas. Quando tais forças começarem a agir, nem mulheres nem homens precisarão sacrificar o âmbito familiar ou o âmbito profissional, as demandas por mudanças aumentarão e as mulheres poderão se equiparar aos homens profissionalmente.

 

O que as grandes negociações de 2019 nos dizem sobre a próxima década

Diferentemente do clima terrestre, o clima para os negócios permaneceu teimosamente inalterado em 2019 – ou não?

Negócios fechados são indicadores tanto negativos quanto positivos de transformações na economia. Alguns remetem a situações passadas, e outros sinalizam tendências emergentes. Uma análise das negociações concretizadas (e não concretizadas) mais marcantes do último ano pode nos dizer a posição em que estávamos e para onde estamos caminhando.

Segundo várias métricas, a atividade de F&A em 2019 não foi tão alta quanto em anos anteriores, mas o padrão das negociações está se mostrando, em alguns aspectos, novo. Muitas das negociações do ano de 2019 contemplam a consolidação e a digitalização das tendências industriais de décadas passadas. Entretanto, houve sinais de que a década de 2020 irá conduzir a novas tendências em como poderemos lidar com o poder da tecnologia. Vimos, novamente, que a mudança climática não é brincadeira, embora ainda não saibamos como as empresas irão reagir. Com o tempo, os negócios também irão refletir a transformação de nosso mix de energia.

Os negócios de sempre

Dentre as tendências já estabelecidas, em 2019, a área farmacêutica continuou a ganhar força e a aprimorar seus serviços. Desde a década de 1990, as empresas farmacêuticas vêm se consolidando para aumentar seu poder de barganha na cadeia do setor da saúde. Elas também vêm abraçando a inovação de startups biotécnicas. Em 2019, a Bristol-Myers adquiriu a Celgene (US$ 74 bilhões), a Takeda adquiriu a Shire (US$ 62 bilhões), e ambas Sanofi e Novartis adquiriram empresas na casa dos US$ 10 bilhões. Essas negociações, de fato, têm dois objetivos – elas trazem novas tecnologias para as grandes empresas, e mantêm, também, uma estrutura de indústria enxuta. Ao mesmo tempo, as grandes fusões do ano passado das seguradoras (CVS-Aetna e Cigna-Express Scripts) iniciaram o processo de integração, embora ainda haja dúvidas a respeito dos benefícios para os consumidores.

As empresas de mídia e telecomunicações também seguiram diretrizes bem estabelecidas para construir seu poder de mercado. Três grandes fusões foram concretizadas em 2019: Sprint e T-Mobile (US$ 26 bilhões), AT&T e Time Warner (US$85 bilhões) e Disney e 21st Century Fox (US$ 71 bilhões). As aquisições da Disney nos últimos anos estão abastecendo as ofertas agressivas em streaming de vídeos. A batalha do streaming entre Disney, Netflix, Hulu, Amazon, Apple, e HBO vem se avolumando já faz algum tempo, e agora atingiu seu ápice. Esse ecossistema irá, com o tempo, se render à consolidação também, mas ainda não chegamos lá. Por ora, vale tudo para conquistar uma nova geração de consumidores de mídia que querem se ver livres da TV a cabo.

Os produtores industriais também deram sequência a um movimento que começou há dez anos – a dissolução dos conglomerados. A Dow se desmembrou em três no ano passado, como havia prometido quando fez a fusão com a DuPont há dois anos. Essas duas etapas envolviam uma fusão para fortalecer as empresas, seguidas de um desmembramento que aprimoraria o foco em cada um dos negócios, ao mesmo tempo que mantinham seu poder de mercado. Na verdade, a história do desmembramento era normalmente dois passos à frente, e um passo para trás. A Danaher reduziu seu tamanho somente para ganhar força novamente a fim de adquirir a unidade de biofarma da General Electric (US$21 bilhões). A GE, mesmo depois desta venda, parece estar determinada a dobrar sua aposta na área da saúde. No setor aeroespacial e de defesa, a United Technologies, que havia se dividido em três, começou a dar sinais de melhora e se juntou à Raytheon, numa operação de fusão avaliada em US$ 135 bilhões.

Todas essas foram negociações grandiosas, mas foram usuais. Quais negociações podem indicar algo para a década de 2020? Curiosamente, a carência de certos tipos de negociações é o que devemos observar.

Tendências emergentes em tecnologia

Em 2019, houve um esforço renovado para conter o crescimento da tecnologia. A ideia de que empresas como Google, Facebook e Amazon estavam ficando muito grandes e invadindo nossa vida continuou a ganhar terreno em Washington. A Google enfrentou investigações antitruste em 50 estados, e o presidente da FTC (Federal Trade Commission, órgão similar ao Cade no Brasil) sugeriu que poderia fazer outras investigações. Em meados de dezembro, foi dito que a FTC estava pensando numa intimação contra a Facebook para que não integrasse o Instagram, o WhatsApp e o Messenger – caso as autoridades da lei antitruste decidissem, posteriormente, desmembrar a empresa. Esses esforços não levam a lugar nenhum. No entanto, seria surpreendente se a pressão não fizesse com que as grandes empresas de tecnologia se distanciassem de grandes aquisições. Dois grandes negócios em tecnologia foram concretizado sem 2019 (IBM-Red Hat, US$ 34 bilhões) e a Salesforce adquiriu a Tableau (US$ 16 bilhões). Entretanto, Apple, Google e Amazon se contiveram – considerando suas reservas de caixa – nenhuma delas gastou mais de US$ 3 bilhões numa negociação desde 2017.

Uma tendência similar que ganhou terreno em 2019 foi a  delimitação da tecnologia – a construção de uma barreira virtual entre as esferas de influência chinesas e americanas no ramo da tecnologia. Os investimentos da China nos Estados Unidos caíram 90% nos últimos três anos. A guerra comercial deu início a isso, mas a tendência foi impulsionada por suspeita mútua entre as elites desses países e os regimes no poder. Ambos acreditam que novos setores, como inteligência artificial, cibersegurança, e mídias sociais são essenciais para a segurança nacional e para a governabilidade da sociedade. Numa tendência sem precedentes, a Comissão Federal de Comunicações (FCC, em inglês) retirou a Huawei do mercado dos EUA em 2019, alegando preocupações com e segurança de dados. A Google já deixou a China há 10 anos por conta de censura. Mesmo assim, empresas chinesas dominam o mercado chinês, bem como empresas americanas dominam o mercado americano. As empresas de tecnologia apreciam os efeitos do network, mas parece que esse network irá parar na nova delimitação.

O que essas tendências novas e antigas dizem da transformação do mix de energia? Infelizmente, não muita coisa.

Respostas às mudanças climáticas

Com relação à emissão de carbono, a lacuna existente entre onde estamos e onde deveríamos estar é imensa. A energia eólica e a solar estão ganhando terreno, mas ainda leva tempo para que a infraestrutura de nossa energia consiga usar seu potencial por completo. As grandes empresas de petróleo continuam a flertar com as startups de produtos renováveis; pelo menos, essas parcerias propiciam bons comerciais de TV e talvez acalmem os investidores em ESG. No entanto, no mundo todo, o financiamento de projetos e P&D público em energia renovável têm retraído nos últimos anos.

Ainda assim, também houve problemas nas plataformas petrolíferas. A Occidental adquiriu a Anadarko (US$ 38 bilhões), mas a nova empresa imediatamente começou a se desfazer de campos petrolíferos no exterior para pagar a negociação. O investidor ativista Carl Icahn defende a revogação dessa fusão e argumenta que ela prejudica o valor da empresa. Essa opinião surge depois dele conseguir ajudar a arruinar a malfadada fusão de Fuji Film com a Xerox. Os acionistas da Occidental não estão felizes, tampouco os acionistas de empresas petrolíferas. A Exxon, Shell e a BP estão se esforçando para pagar dividendos este ano, e algumas estão reavaliando seus ativos numa atmosfera de preços baixos e pressão social. A tão esperada IPO (Oferta Pública de Aquisição de ações) da Aramco não animou os investidores em combustíveis fósseis; a meta de valor da IPO foi rebaixada e, atualmente, está somente listada no mercado de ações de Riade. Ainda assim, a empresa angariou mais fundos do que qualquer outra IPO na história – o que testemunha o perdurável poder do petróleo.

A melhor novidade do ano sobre negociações, na verdade, não foi uma negociação, mas sim, uma proposta para uma negociação. A proposta para um novo acordo verde (Green New Deal, em inglês) apresentado no Congresso dos Estados Unidos em 2019 exigiu uma ação emergencial do governo para descarbonizar a economia americana de maneira a incentivar a empregabilidade e não prejudicar os mais fracos na sociedade. Essa proposta, efetivamente, pede que repensemos o que filósofos chamam de contrato social entre empresas, governo e sociedade. Este contrato já havia sido quebrado por aqueles com alto poder aquisitivo e pela grande diferença de renda, que vem aumentando desde a década de 1980. As ameaças da mudança climática tornaram essa reconsideração sobre contrato social ainda mais urgente. Sendo assim, não é de se surpreender que, em 2019, até mesmo a Business Roundtable tenha anunciado um novo conjunto de métricas para as empresas que procuram equilibrar os interesses dos acionistas e dos stakeholders.

Em 2019, vimos o dilema do nosso planeta de forma muito mais clara do que jamais havíamos visto anteriormente. As negociações da próxima década sinalizarão como deveremos agir. Algumas irão fortalecer os hábitos já existentes, e mais, espera-se que transformem a economia americana para melhor.

Harvard Business Review Brasil

Memória use para preservar

A solução para reduzir o esquecimento associado à idade não vem em forma de comprimido. O diferencial está nos hábitos e no estilo de vida

Hal Arkowitz e Scott O. Lilienfeld

Quando Mick Jagger cantou pela primeira vez “que chatice é ficar velho” (na música Mother’s little helper), há meio século, ele tinha 23 anos. Hoje, aos 73, o roqueiro parece ter encontrado o segredo para permanecer em boa forma física à medida que sua idade avança. De fato, com os inúmeros recursos existentes atualmente, os sinais visíveis dos efeitos do tempo sobre corpo podem ser bastante atenuados. Envelhecer, porém, tem também implicações psíquicas. Muita gente teme a perda de memória e receia estar enveredando pela demência, como a doença de Alzheimer, a mais comum delas. Toda vez que esquecem suas chaves, deixam uma porta destrancada ou não se lembram do nome de alguém, essa persistente preocupação se manifesta. Na maioria dos casos, porém, esses pequenos e irritantes incidentes são parte da perda normal de memória associada à idade – e não um sinal de demência iminente. Embora muitos adultos mais velhos acreditem que esse declínio é inevitável, há boas notícias para muitos deles. Pesquisadores desenvolveram uma série de atividades para exercitarmos nossa mente e nosso corpo, que podem ajudar a reforçar e a apoiar a memória em um cérebro normal que está envelhecendo.

A memória não é uma função isolada. O termo engloba várias modalidades de lembrar, e algumas delas não declinam com a idade. Pessoas mais velhas, por exemplo, continuam dominando seu vocabulário, com seu conhecimento geral sobre o mundo (memória semântica). Elas também são capazes de executar tarefas rotineiras, como fazer uma omelete ou digitar em um computador (memória processual) com destreza mais ou menos igual à que tinham quando eram mais jovens. Mas seu desempenho piora para se lembrarem de fatos recentes em sua vida (memória episódica) ou recordarem onde receberam originalmente uma informação (memória de origem), gerenciar o armazenamento temporário de informações de curto prazo (memória de trabalho) e lembrarse de coisas a fazer (memória prospectiva).

Esta última, em particular, é um alvo fundamental, já que se esquecer de realizar tarefas ou compromissos futuros pode gerar considerável frustração ou mal-estar. Em 2002, o psicólogo Narinder Kapur, do Hospital Geral de Southampton, na Inglaterra, e seus colegas revisaram estudos sobre a eficácia de várias técnicas comuns para reforçar a memória prospectiva. Eles constataram que auxílios externos, como fazer listas ou programar lembretes em um telefone celular, podem ser úteis para reduzir problemas de memória como deixar de pagar contas ou comparecer a reuniões.

Outra estratégia bem-sucedida envolve associar informações a serem lembradas a uma imagem, frase, sentença ou palavra. Quanto mais relevante do ponto de vista pessoal for a associação, mais provável será ser lembrada, uma abordagem conhecida como processamento autorreferencial. Se tivermos de devolver um livro à biblioteca, por exemplo, podemos nos imaginar fazendo exatamente isso. Acrônimos inventados também podem ser uma enorme ajuda. Nessa estratégia, uma pessoa forma uma nova palavra com as letras iniciais daquilo que quer lembrar.

Em 2008, as psicólogas Elizabeth L. Glisky, da Universidade do Arizona, e Martha L. Glisky, na época no Centro Médico Evergreen, em Seattle, descreveram outros métodos que envolvem elaboração visual ou semântica. Em um deles, uma pessoa evoca imagens associadas a algo que ele ou ela quer reter. Para se lembrar do nome “Mônica”, por exemplo, a pessoa pode imaginar a personagem criada pelo cartunista Maurício de Souza.

Embora Glisky e Glisky tenham encontrado sustentação para essas técnicas visuais e semânticas, entre outras, elas fizeram a ressalva de que melhorias de memória no laboratório não se traduzem necessariamente em melhoramentos no dia a dia. Esses benefícios exigem praticar e aplicar as táticas regularmente. A lacuna em eficácia pode ser muito maior no caso de estratégias que envolvem tempo e esforço consideráveis para serem aprendidas. Além disso, melhorias em uma área da memória frequentemente não se generalizam e se difundem para outras.

De modo geral, os estudos encontraram sustentação para a validade da afirmação “Use-a ou perca-a”. Quanto mais exigimos de nossa memória, por exemplo, ao lermos, desvendar quebra-cabeças e participar de jogos de tabuleiros, melhor ela pode ser – provavelmente porque essas atividades envolvem um exercício considerável. É claro que as pessoas que têm memórias mais afiadas também podem ser mais propensas a exercitar sua mente para começo de conversa, o que responde em parte (mas provavelmente não tudo) pela associação entre boa memória e quantidade de estímulo cognitivo.

Se Mick Jagger estiver fisicamente em forma como parece, sua mente pode estar seguindo o mesmo caminho. Alguns estudos constataram que níveis mais elevados de exercícios aeróbicos estão associados a uma memória melhor em adultos mais idosos. Quando o psicólogo Stanley Colcombe e seus colegas da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign revisaram 18 estudos controlados que abordavam essa associação em 2003, encontraram evidências de que a prática desses exercícios de fato levava a uma memória mais aguçada.

Uma atividade aeróbica sustentada pode não ser a única maneira de manter a sua mente ágil e sua memória afiada. Em um estudo recente, a neurologista Ruth Ruscheweyh e seus colegas da Universidade de Münster, na Alemanha, avaliaram a atividade física total em 62 idosos ao longo de seis meses. O questionário da equipe incluía tanto perguntas sobre exercícios formais quanto rotinas diárias como caminhar para o trabalho, subir escadas e praticar jardinagem. Ao final do estudo, os pesquisadores associaram os aumentos de atividade geral reportados, independentemente de que tipo, a melhorias na memória episódica. Quanto maior o aumento dos níveis de atividade, maior o reforço da capacidade mnêmica. Portanto, manter-se fisicamente ativo através de exercícios regulares, com afazeres fora de casa (a pé ou de bicicleta, por exemplo) e execução de tarefas cotidianas, pode ser a melhor receita para revigorar seus poderes de recordação.

A pesquisa sugere que muitas técnicas para fortalecer a memória, assim como um estilo de vida física e mentalmente ativo e estimulante, podem melhorar essa capacidade em adultos com mais de 60 anos. Ainda temos um longo caminho a percorrer antes que tenhamos métodos altamente eficazes, mas, diante do vigor desse campo, podemos esperar grandes progressos no futuro próximo.

Mente Cérebro

Fascinar-se aumenta grau de satisfação e felicidade

Cultivar a sensibilidade a cenas cotidianas, como beleza de uma paisagem ou gestos de bondade alheia, pode nos tornar pessoas menos egoístas
Francine Russo

Palavras como “maravilhoso” ou “incrível” se tornaram adjetivos comuns, muitas vezes destituídas da magnitude que impressões realmente superlativas nos despertam. O fascínio genuíno representa uma profunda emoção: um suspiro ao olhar um céu surpreendentemente estrelado, os arrepios ao ouvir uma melodia tocante ou a sensação de “coração rasgado” ao ver uma multidão segurando velas no alto, em meio à escuridão. Essas experiências podem nos fazer pessoas melhores? Um artigo publicado no Journal of Personality and Social Psychology sugere que sim.

“Há muito tempo os filósofos dizem que o misto de respeito e admiração une as pessoas e queríamos entender melhor esse sentimento”, diz o psicólogo Paul Piff, professor assistente de psicologia e comportamento social da Universidade da Califórnia em Irvine, principal autor do estudo. Ele começou a investigar o tema no laboratório do psicólogo Dacher Keltner, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo Piff, a pesquisa mostra que essa sensação pode ajudar a nos tornarmos menos egocêntricos e mais sintonizados com as necessidades do grupo.

No primeiro de cinco estudos, os pesquisadores constataram, com a ajuda de uma pesquisa nacional representativa, que as pessoas que relataram experimentar esse sentimento com maior frequência eram de fato mais generosas. No experimento, os cientistas observaram que, depois de terem recebido algumas rifas e terem a oportunidade de ceder outras, esses indivíduos tinham a tenência de doar maior quantidade.

Os pesquisadores realizaram outros quatro experimentos em que induziram essa sensação em alguns participantes e outras emoções como orgulho ou diversões em outros. Para isso, lançaram mão de cenas em vídeo da natureza de tirar o fôlego ou convidaram os voluntários a observar imponentes árvores de eucalipto ao ar livre.

Em todos os casos, aqueles que se sentiram maravilhados se comportaram de uma forma que os psicólogos chamam de “pró-social”: foram mais úteis e tomaram decisões mais éticas. Os participantes que observavam as árvores, por exemplo, pegaram mais vezes canetas derrubadas “acidentalmente” por um pesquisador disfarçado do que aqueles que olhavam para um edifício.

Segundo os autores, ao nos sentirmos uma pequena parte de algo maior, a admiração desloca nossa atenção de nossas próprias necessidades para as de um bem maior. Alguns pesquisadores especulam que a reverência pode ter evoluído em resposta a um líder poderoso. A manutenção de hierarquias sociais e a garantia de participação grupal podem aumentar as chances de sobrevivência.

Não é surpresa que alguns estudos sugerem que o fascínio pode favorecer a devoção. “Podemos pensar que a religião é uma instituição cultural que ritualiza o encantamento por meio da arquitetura e da música”, diz Piff. O psicólogo costuma fazer uma sugestão interessante: que as pessoas mantenham um “diário de contemplação” por duas semanas e diariamente registrem tudo o que evoca essa sensação – um pôr do sol, as penas de um pássaro, o gesto de bondade de outra pessoa, por exemplo. Ele afirma que mudar o foco em direção a algo grande pode nos levar a colocar os problemas em perspectiva, além de ajudar a nos abrirmos para o mundo.

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